Medo de errar e a vergonha do corpo, podem ser algumas das causas para o sexo feminino deixar de optar pelo esporte.
Meninas participam menos da Educação Física, mas mediação docente vira o jogo.
A participação desigual nas aulas impacta autoestima, confiança e desenvolvimento integral. Veja como a mediação docente pode transformar essa realidade.
Apesar dos avanços nos debates sobre gênero, ainda persiste um padrão preocupante no ambiente escolar: meninas participam menos ativamente das aulas de Educação Física do que os meninos — inclusive em frequência e intensidade das atividades.
Uma revisão publicada na Revista Europeia de Educação Física e Ciência do Esporte mostrou que, em diferentes contextos escolares, elas apresentam participação significativamente menor nas aulas de Educação Física, e essa diferença tende a aumentar durante a adolescência, à medida que conteúdos e expectativas relacionadas a desempenho físico ganham importância.
O cenário é semelhante no Brasil: pesquisadores da UERJ constataram que meninos e meninas ainda participam de forma desigual nas aulas de Educação Física, e que a atuação docente é um fator determinante nessa diferença de comportamento e engajamento.
Na Rede Municipal de Ensino de São Paulo, o desafio é reconhecido como parte de um processo histórico de transformação da área. A frente de Educação Física da Divisão de Ensino Fundamental e Médio (DIEFEM) e o Núcleo de Gênero e Diversidade da Secretaria Municipal de Educação (COPED/SME-SP) avaliam que a Educação Física esteve, durante muito tempo, associada a padrões rígidos e a um conjunto restrito de modalidades.
Hoje, segundo o grupo, o currículo busca ampliar esse olhar, incluindo diferentes práticas corporais — como jogos, danças, lutas, ginásticas e atividades de aventura — para garantir aulas “mais democráticas, inclusivas e acessíveis, nas quais meninas e meninos participam juntos, com igualdade de oportunidades”, conforme afirma o grupo em nota à Nova Escola.
Se os dados mostram que a desigualdade é estrutural, as experiências em sala indicam que ela também é cotidiana e que pode ser enfrentada com escolhas pedagógicas concretas.
Como a desigualdade se manifesta?
Nem sempre há exclusão explícita, muitas vezes, as diferenças aparecem na divisão espontânea dos times, na concentração da bola com poucos alunos ou na escolha silenciosa de algumas meninas por “ficar olhando”.
Segundo a professora Denise Azevedo Apolinário, que atua com Educação Física nos ensinos Fundamental e Médio nas redes estadual e municipal de Andradina (SP), a desigualdade costuma ficar mais evidente em modalidades tradicionalmente associadas ao universo masculino, como futebol, futsal e basquete.
Ela explica que, durante essas práticas, a socialização nem sempre acontece de forma equilibrada e que algumas alunas preferem não se envolver.
Rosalina de Lázaro, professora de Educação Física da EE José dos Santos, em Aspásia (SP), observa padrão semelhante. Para ela, esportes coletivos que exigem velocidade e força acabam reforçando a percepção de superioridade física masculina — uma construção cultural que atravessa a escola.
Porém, a educadora chama atenção para um dado revelador: mesmo em modalidades como xadrez ou tênis de mesa, que envolvem outras habilidades, a participação masculina costuma ser maior. O que está em jogo, portanto, não é apenas desempenho físico, mas expectativas sociais sobre o que é considerado “adequado” para meninas e meninos.
Medo de errar e a vergonha do corpo
Entre as barreiras apontadas pelas professoras estão o medo de errar, a vergonha do próprio corpo, a timidez e a crença de que determinados esportes “não são para elas”.
“Muitas meninas foram educadas desde cedo a conter movimentos e a preservar uma disciplina corporal mais rígida, o que impacta diretamente a confiança para experimentar novas habilidades motoras”, diz Rosalina.
Perdas no desenvolvimento integral
A desigualdade de participação, porém, não se limita à aula de 50 minutos. Ela produz efeitos acumulativos. A Educação Física é um espaço privilegiado para o desenvolvimento da autonomia, da cooperação e da autoconfiança. Quando meninas participam menos, deixam de vivenciar experiências de liderança, enfrentamento de frustração e reconhecimento coletivo.
Segundo Rosalina, alunas que chegam ao Ensino Médio sem histórico de participação nas aulas de Educação Física, frequentemente, demonstram insegurança diante de desafios corporais e sociais. A frase recorrente “posso ficar só olhando?” revela não apenas falta de habilidade técnica, mas uma relação fragilizada com o próprio corpo e com a exposição pública. “Eu sempre convido para que ela experimente ao menos parte da aula. Além disso, os colegas costumam ser acolhedores, assim ela se sente incluída e com coragem para avançar no aprendizado”, comenta.
Denise, por sua vez, acredita que a autoestima também fica fragilizada e muitas meninas passam a acreditar que não são capazes de praticar determinados esportes e preferem permanecer na zona de conforto. Na visão da professora, isso pode reverberar inclusive na vida profissional futura, já que protagonismo e segurança são competências desenvolvidas em diferentes espaços escolares, inclusive na quadra.
A frente de Educação Física da DIEFEM e o Núcleo de Gênero e Diversidade da SME-SP avaliam ainda que o componente contribui diretamente para o bem-estar físico e mental dos alunos, para a convivência e para o desenvolvimento socioemocional.
Assim, de maneira geral, em um contexto de aumento do sedentarismo entre crianças e adolescentes, a menor participação amplia riscos à saúde e limita experiências formativas essenciais.
A importância da mediação docente
As experiências relatadas pelas professoras indicam que pequenas mudanças organizacionais produzem efeitos significativos. Rosalina defende a formação de grupos heterogêneos, nos quais mistura meninas e meninos, estudantes com diferentes níveis de habilidade e até com deficiência.
Para isso, orienta o revezamento sistemático de lideranças e a organização das atividades com progressão de dificuldade, garantindo que todos tenham tempo de experimentar antes de serem expostos a desafios mais complexos.
“Quando jogamos futsal, por exemplo, adaptamos a regra incluindo um tempo, em que apenas as meninas podem fazer gol. Assim os meninos são obrigados a passar a bola para que elas cheguem até o gol e as meninas se sentem responsáveis pelo sucesso da equipe”, conta a professora.
Já Denise aposta na construção de combinados claros e na mediação constante. Inicia as aulas com rodas de conversa, explicita expectativas de respeito e intervém quando conflitos deixam de ser produtivos. Para ela, o papel do professor é promover autonomia, orientar e estimular o diálogo, não apenas organizar a atividade.
Do ponto de vista curricular, a orientação dada pela frente de Educação Física da DIEFEM e pelo Núcleo de Gênero e Diversidade da COPED/SME-SP é a ampliação das práticas corporais — incluindo danças, lutas, ginásticas e atividades de aventura. Isso ajuda a romper com a centralidade exclusiva dos esportes coletivos tradicionais.
Ao diversificar experiências, o currículo reconhece diferentes interesses e reduz a associação automática entre desempenho físico e valor social. Por fim, “cabe ao professor orientar os estudantes, reforçar que a Educação Física não se limita a jogos coletivos e propor atividades colaborativas, assegurando a participação de todos. Dessa forma, currículo e prática pedagógica atuam de forma integrada na promoção da equidade de gênero”, afirmam os grupos em nota.
O papel dos meninos na construção da equidade
Promover equidade não significa apenas fortalecer meninas, envolve também responsabilizar meninos pelo ambiente coletivo.
Para Denise, eles devem ser participantes ativos do debate sobre igualdade e respeito, e não apenas espectadores. Estabelecer regras claras, como não usar apelidos, evitar piadas ofensivas e dividir responsabilidades, contribui para criar uma cultura de convivência mais justa.
A professora Rosalina reforça que discutir machismo de forma aberta é fundamental, pois convencer meninas de que são capazes não basta, se o preconceito cultural permanecer intacto.
Trazer referências também amplia repertórios e questiona estereótipos: “Temos ex-alunas que estão em lugar de destaque no esporte profissional, sejam jogadoras ou técnicas de futebol.
Então usamos estes exemplos a nosso favor, como espelhos para os estudantes”, diz.
Garantir participação efetiva das meninas nas aulas de Educação Física não exige mudanças grandiosas, mas decisões pedagógicas consistentes: organizar times de forma intencional, revisar regras, ampliar repertórios de práticas corporais e intervir quando o silêncio ou a exclusão se naturalizam. É na mediação cotidiana que a quadra se transforma — e que meninas deixam de ocupar a arquibancada para ocupar o jogo.


